Incidente é classificado como “perda de separação” e envolveu aeronaves da Gol e Azul; controlador orientou abortagem de pouso e decolagem, mas tripulação da Azul não respondeu

SÃO PAULO — A Força Aérea Brasileira (FAB) abriu uma investigação para apurar a aproximação de dois aviões que ficaram separados por poucos metros de distância vertical na manhã da última quinta-feira (30) no Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo.
O caso veio à tona após alerta do portal especializado AeroIn, com base em dados do Flightradar24. Um passageiro também registrou, em vídeo, o momento em que as aeronaves se aproximam uma da outra durante a saída do terminal.
Como aconteceu
A situação envolveu um Boeing 737-800 da Gol, que fazia o voo G3 1629 procedente de Salvador e se preparava para pouso, e um Embraer E195-E2 da Azul, que iniciava decolagem rumo a Confins (MG), no voo AD6408.
Imagens gravadas pela câmera do canal “Golf Oscar Romero” mostram a comunicação entre a torre de controle e os pilotos. Pelos registros, houve um descompasso no tempo de resposta: a aeronave da Azul demorou a iniciar a corrida de decolagem.
Ao perceber o risco de conflito entre as trajetórias, o controlador determinou a interrupção da decolagem e orientou o avião da Gol a arremeter — manobra em que o piloto aborta o pouso e volta a ganhar altitude para uma nova tentativa em segurança.
Na sequência, o controlador voltou a instruir a Azul a abortar a decolagem, mas a tripulação não respondeu e manteve o procedimento, por razões ainda não esclarecidas.
Perda de separação
Especialistas em segurança de voo consultados classificam o episódio como “perda de separação” — quando duas aeronaves ficam mais próximas do que a distância mínima de segurança estabelecida pelas regras do Controle de Tráfego Aéreo.
Pelas regras internacionais da aviação, duas aeronaves precisam ficar a uma distância de cerca de 300 metros de distância vertical para evitar colisões e facilitar manobras de emergência. Essa distância de segurança no Brasil já foi de 600 metros até 2005, mas as regras mudaram em razão do aperfeiçoamento e modernização das aeronaves.
Na avaliação do especialista Roberto Peterka, houve atraso na decolagem da aeronave da Azul enquanto o avião da Gol já se aproximava para pouso.
“Quando iniciou a decolagem, não atendeu à orientação para interromper a corrida. Diante disso, o Gol foi instruído a arremeter. As aeronaves acabaram ficando abaixo do limite mínimo de separação”, afirmou.
Segundo Peterka, como as aeronaves romperam o limite de segurança, provavelmente o dispositivo anticolisão dos dois aviões (TCAS) deve ter disparado, dando orientações para mudanças de rota.
O TCAS (Traffic Collision Avoidance System) é o dispositivo anticolisão dos aviões. Quando eles rompem a barreira de proximidade, o TCAS dispara nos dois aviões e dá ordens diferentes para que eles não se aproximem ainda mais e evitem acidentes.
Apesar disso, especialistas destacam que a torre de controle atuou corretamente, aplicando as camadas de segurança previstas para evitar um acidente.
Investigação
Segundo a FAB, o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) foi acionado para realizar a ação inicial da ocorrência. De acordo com o órgão, essa etapa inclui a coleta e validação de dados, preservação de evidências e levantamento de informações necessárias para a investigação.
O que dizem as empresas
Procurada, a Azul informou que o voo AD6408 seguiu os procedimentos operacionais previstos e reforçou que “a segurança é seu valor primordial”, acrescentando que colabora com o Cenipa.
A Gol declarou que o pouso do voo G3 1629 ocorreu em segurança e dentro do horário previsto e que também colabora com as investigações.
Já a Aena, concessionária que administra o aeroporto, afirmou que informações sobre o caso devem ser obtidas junto ao Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA), órgão responsável pelo gerenciamento do tráfego aéreo no país.
O caso segue em investigação, e novas informações serão divulgadas pelas autoridades competentes.








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