Percentual de endividados atingiu 80,4% em março, maior nível da série histórica; oposição critica governo, que planeja novo programa de renegociação de dívidas

BRASÍLIA — Com o endividamento das famílias em níveis recordes e metade dos brasileiros inadimplentes, a pressão das dívidas mobiliza o governo e começa a ganhar espaço na disputa presidencial de 2026. O percentual de endividados atingiu 80,4% em março, o maior nível da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Enquanto os pré-candidatos de oposição Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) exploram o cenário para criticar o governo, o alto nível de endividamento das famílias é assunto recorrente em falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Resolver o problema é uma das missões que o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, recebeu de Lula ao assumir o cargo no lugar de Fernando Haddad (PT). Segundo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, o tema é a principal preocupação de Lula para as eleições de 2026.
Números recordes
Dados do Banco Central (BC) mostram que quase metade da renda dos brasileiros está comprometida com dívidas como cartão de crédito, empréstimos e financiamentos. O nível de endividamento no sistema financeiro se aproxima do registrado em 2022, no fim do governo Jair Bolsonaro (PL).
O Mapa da Inadimplência do Brasil, divulgado no fim de março pela Serasa, mostra que o número de inadimplentes aumentou 38% nos últimos 10 anos — de 59 milhões para 81,7 milhões. Agora, metade dos adultos está com o CPF negativado.
Lula estuda plano
Na terça-feira (7), Lula e Durigan se reuniram para discutir um novo programa de refinanciamento de dívidas. A ideia é oferecer a quem está no vermelho a chance de trocar todas as dívidas por uma nova, com juros mais baixos e desconto que pode chegar, em alguns casos, a 80%.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, também defendeu o uso de valores do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Conforme cálculos da pasta, cerca de 10 milhões de brasileiros podem ter acesso a R$ 7 bilhões para pagar dívidas.
“O que nós queremos é ver como é que a gente faz para facilitar o pagamento daquilo que as pessoas devem. […] Por isso, o Dario Durigan está com a função de apresentar essa solução”, disse Lula, em visita a uma montadora de carros em Anápolis (GO) no fim de março.
Oposição critica custo de vida
Os pré-candidatos de oposição têm explorado o aumento do custo de vida como eixo de crítica ao governo. Em vídeo nas redes sociais, Flávio Bolsonaro afirmou que os brasileiros sentem no dia a dia o encarecimento de itens básicos, como alimentos, combustível e energia, apesar das projeções oficiais de inflação.
“Você não precisa ser economista para saber que viver no Brasil tá caro. É o mercado mais caro, é o combustível pesando no bolso, é a conta de luz que não para de subir. Hoje, a projeção para inflação no Brasil está em torno de 4%, mas o brasileiro não vive de índice. Ele sente no dia a dia a alta do preço da comida. É o cidadão trabalhando mais para ter menos”, declarou.
Ronaldo Caiado reagiu a declarações de Lula sobre gastos com animais de estimação, que geraram polêmica, e também destacou a alta dos alimentos, a inflação e os juros elevados.
“Lula, agora você quer me dizer que o nível de endividamento das pessoas é em decorrência do fato deles criarem um cachorro em casa? É isso, Lula?”, questionou.
O tema na eleição
O diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirmou que a percepção dos brasileiros sobre a economia — e, por consequência, sobre o governo Lula — é negativa e tende a influenciar as eleições. Segundo ele, a capacidade de arcar com o custo de vida deve ganhar peso inédito no debate eleitoral.
“Mesmo com o aumento da renda, o custo de vida subiu no mesmo ritmo ou até mais, o que não gera sensação de bem-estar”, disse.
Em entrevista ao podcast O Assunto, Nunes destacou que pesquisas qualitativas têm mostrado uma forte relação entre o endividamento e o vício em jogos online, principalmente entre homens. Segundo a pesquisa citada, 29% dos entrevistados relataram ter começado a apostar para tentar pagar contas, e 27% buscavam renda extra. Entre os inadimplentes, 46% apostam — incluindo quem já está com o nome negativado.
“É um comportamento de risco para essa população que está com o nome negativado. Quando você mistura dívida, jogo e preço [do custo de vida], você entende o sentimento [de ausência de bem-estar]”, diz o diretor da Quaest.
Economia aquecida, famílias endividadas
A economia brasileira vive um bom momento. A taxa de desemprego está em seu menor patamar (5,8%) e o valor médio recebido mensalmente por trabalhadores está pouco acima de R$ 3.600, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua).
De acordo com o economista Flávio Ataliba, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), não existe contradição entre o mercado aquecido e as famílias endividadas. Três fatores explicam por que isso está acontecendo:
- A expansão da ocupação ocorreu em postos de trabalho de renda mais baixa, mais informais ou com menor estabilidade;
- Muitas famílias já carregam dívidas acumuladas dos últimos anos, especialmente após a pandemia e após a taxa de juros subir de 2% para quase 14%;
- O crédito para pessoa física continua muito caro. O rotativo do cartão voltou a subir e alcançou mais de 435% em fevereiro.
“A renda até melhora na margem, mas o custo de vida segue pressionado e o serviço da dívida continua muito pesado. Qualquer alta em índices essenciais gera essa sensação de empobrecimento”, disse Ataliba.
A inflação de alimentos, que aumentou de 0,09% em fevereiro para 1,10% em março, é um fator essencial, segundo o economista, porque pesa muito no orçamento, principalmente das famílias de baixa renda.
“A população não compara a economia com indicadores macroeconômicos; o que mais importa é o que acontece no caixa do supermercado. Se a pessoa vê carne, leite, ovo e feijão subindo, a sensação é de perda de poder de compra imediato, mesmo que emprego e renda tenham melhorado em alguma medida”, disse o economista.
Aprovação do governo
Pesquisas da Quaest mostram que a diferença entre desaprovação e aprovação do governo vem aumentando desde o fim do ano passado. Era de um ponto em dezembro, dois em janeiro, quatro em fevereiro e sete em março.
Em março, 64% dos entrevistados achavam que seu poder de compra estava menor, 58% responderam que o preço dos alimentos estava mais alto e 48% afirmaram que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto apenas 24% viram melhora.
Renegociação não resolve problema estrutural
Segundo a economista Camila Abdelmalack, programas de renegociação de dívidas, como o que está sendo planejado pelo governo, podem até trazer um alívio imediato e melhorar a imagem do governo às vésperas da eleição, mas não resolvem a recorrência da inadimplência no Brasil.
Ela lembra de experiências anteriores, como o Desenrola Brasil, uma promessa de campanha de Lula em 2022.
“Esses programas podem trazer alívio no curto prazo e melhorar temporariamente o orçamento das famílias, mas seus efeitos tendem a ser limitados, porque o país enfrenta um problema estrutural: taxas de juros de dois dígitos, entre as mais altas do mundo”.
O tema do endividamento promete ser um dos mais quentes da campanha eleitoral de 2026, com candidatos da situação e da oposição apresentando propostas para aliviar o bolso do consumidor e estimular a economia.








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