Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, faleceu em fevereiro após nadar em piscina na Zona Leste; perícia aponta danos em órgãos vitais e levanta hipóteses sobre exposição a substâncias tóxicas

SÃO PAULO — Laudos do Instituto de Criminalística e do Instituto Médico Legal (IML) obtidos com exclusividade apontaram lesões graves no pulmão da professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, que morreu após nadar na piscina da academia C4 GYM, na Zona Leste de São Paulo. O caso ocorreu no dia 7 de fevereiro.
Juliana e o marido, Vinícius, estavam em uma aula de natação quando notaram que a água da piscina apresentava odor e gosto anormais. Eles comunicaram o professor responsável, e todos os alunos se retiraram do local. O casal foi ao Hospital Santa Helena, em Santo André. O quadro de Juliana se agravou e evoluiu para uma parada cardíaca. Ela não resistiu. Vinícius precisou ser internado e teve alta no dia 15 de fevereiro.
As lesões
O documento aponta lesões na cabeça, fígado, rins e pulmão, sendo estas últimas consideradas graves. Para entender o significado das lesões, a reportagem conversou com o médico perito Jairo Iavelberg, que destacou a gravidade do comprometimento pulmonar.
“O pulmão é formado por milhares de alvéolos, e cada alvéolo é uma unidade funcional do pulmão. Quando você tem uma lesão aguda desses alvéolos, geralmente numa inalação de fumaça, num incêndio, de um gás tóxico, de um ácido, isso vai induzir a determinadas reações inflamatórias que podem estar representadas pelo processo de necrose fibrinoide — a morte muito rápida dessas células alveolares”, explicou.
Ainda conforme o médico, a pessoa tenta aumentar a frequência respiratória, mas isso acaba falhando porque todas as reações vão piorando até a insuficiência respiratória aguda.
“Aí, mesmo que você intube, mesmo que promova respiração artificial, você não vai conseguir ter a troca de gases porque essa unidade do alvéolo vai estar destruída. Isso que leva à morte no caso de aspiração de fumaça, de produtos tóxicos”, ressaltou.
Análise da água e hipóteses
Além dos exames no corpo da vítima, o documento reúne resultados de análises da água da piscina e de produtos encontrados no local. Segundo os peritos, diferentes compostos químicos foram identificados.
Os especialistas levantaram duas hipóteses principais:
- A interação entre fontes de cloro e substâncias ácidas, que pode ter criado um ambiente altamente tóxico;
- A mistura entre dois produtos usados na limpeza da piscina, que pode ter gerado gás cloro, extremamente perigoso ao ser humano.
A conclusão dos peritos é que, se os produtos encontrados na academia foram misturados de forma indevida, eles podem ter formado gases irritantes. O risco seria ainda maior em um ambiente fechado, como a área da piscina.
Apesar disso, os laudos não confirmam se esses produtos causaram a morte de Juliana ou o mal-estar dos outros alunos.
O que diz o marido
Vinícius de Oliveira, marido da professora, cobra justiça.
“A saudade bate forte todos os dias. As lembranças vêm todos os dias, todos os momentos. Junto com as lembranças, coisas boas vêm. Todo o amor, tudo aquilo que a gente viveu de bom. Ao mesmo tempo é muito doloroso por saber que não vai ter mais ela aqui, que eu não vou ter mais ela aqui.”
E complementou: “O que a gente espera é que a justiça seja feita e que isso não se repita nunca mais com ninguém”.
Indiciamento e medidas cautelares
Os três sócios da academia — Cezar Augusto Miguelof Terração e os irmãos Cesar Bertolo Cruz e Celso Bertolo Cruz — foram indiciados pela polícia por homicídio por dolo eventual, quando se assume o risco de causar a morte de alguém. A investigação e o Ministério Público chegaram a pedir as prisões temporárias deles, mas a Justiça negou.
A decisão é da juíza Paula Marie Konno, da 2ª Vara do Júri, que aplicou medidas cautelares aos empresários, como comparecimento periódico em juízo, proibição de contato com testemunhas e restrição de acesso às imediações da academia.
Segundo a magistrada, a prisão cautelar é a “exceção da exceção” e só deve ser usada quando outras medidas forem insuficientes. A juíza também considerou que o risco às provas está mitigado: a academia está lacrada, houve perícia na água da piscina, e produtos químicos foram apreendidos.
Em nota, a defesa dos sócios afirmou que eles cumprirão fielmente as determinações judiciais e seguem à disposição das autoridades.
O que diz a academia
A defesa da academia C4 GYM afirmou que não teve acesso ao laudo da necropsia do IML e que o documento ainda não foi incluído no inquérito. Segundo os advogados, até o momento foi disponibilizado apenas o laudo da água, que, segundo a conclusão, não identificou elementos materiais que comprovem a ocorrência de reação química prejudicial à saúde. A defesa diz ainda que os sócios mantêm compromisso com a transparência e a apuração dos fatos.
O que diz a Secretaria da Segurança Pública
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que a Polícia Civil investiga o caso por meio de inquérito instaurado pelo 42º Distrito Policial (Parque São Lucas). Diversas pessoas já foram ouvidas, entre vítimas, testemunhas e pessoas ligadas à academia. O caso é acompanhado pelo Departamento de Inquéritos Policiais (DIPO), e as diligências continuam.
O caso segue em andamento, e novas informações serão divulgadas assim que forem liberadas pelas autoridades competentes.








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