Líder religioso de 83 anos cumpre prisão domiciliar em Anápolis; redução ocorreu após julgamento de recursos; processos ainda podem sofrer novas alterações

GOIÁS — As condenações do líder religioso João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, de 83 anos, foram reduzidas de quase 490 anos para cerca de 214 anos de prisão após julgamento de recursos na Justiça de Goiás. Documento obtido pela reportagem mostrou que 18 ações penais foram analisadas. A maioria envolve crimes sexuais, como estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude.
João de Deus está preso desde 2018. Atualmente, ele cumpre prisão domiciliar em Anápolis (GO), autorizada pela Justiça em razão da idade e das condições de saúde.
Motivos da redução
A redução ocorreu por diferentes fatores jurídicos. Parte das punições foi extinta porque a Justiça entendeu que, em alguns casos, houve decadência do direito de representação — ou seja, o prazo legal para que as vítimas formalizassem denúncia expirou. Em outros processos, as condenações foram revisadas em segunda instância, com redução do tempo de prisão. Algumas sentenças também foram anuladas.
Uma das penas caiu de mais de 51 anos para 9 anos de reclusão. Trata-se de uma condenação de 2023 por estupro, violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável. Já outro processo por estupro e estupro de vulnerável, que previa uma condenação de 56 anos e 10 meses, foi arquivado após o recurso ser provido, ou seja, aceito pela Justiça.
Recursos pendentes
A grande maioria dos processos criminais de João de Deus ainda possui recursos pendentes de julgamento. Ou seja, o cálculo total das penas ainda pode sofrer novas alterações dependendo do resultado desses recursos que aguardam julgamento nas instâncias superiores.
Vítimas
Ao todo, 67 vítimas constam formalmente nos processos. Também há o registro de 121 vítimas cujos casos sofreram prescrição ou decadência. Além desses casos, João de Deus também responde por crimes sem vítimas, como posse de arma, e uma ação por crimes contra a ordem tributária.
A redução das penas ocorre mais de sete anos após as primeiras denúncias contra o líder religioso. A revisão das penas ocorreu ao longo dos últimos anos após uma série de recursos da defesa.
Os abusos
João de Deus foi condenado por abusar sexualmente de dezenas de mulheres. Os crimes ocorriam durante supostos atendimentos espirituais na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia (GO). Mais de 320 mulheres procuraram as autoridades para relatar abusos sexuais. Muitos dos casos estavam prescritos quando foram registrados, e por isso nem todos chegaram à Justiça.
O líder religioso é acusado de abusar de fiéis que iam até o local em busca de cura espiritual. Ele as convidava para atendimentos individuais após as correntes coletivas de oração. A maior parte das condenações é por estupro de vulnerável, quando a vítima não pode oferecer resistência.
Impacto em Abadiânia
O centro espiritual, motor econômico de Abadiânia, chegou a receber 10 mil turistas por semana. Após a prisão de seu então líder, pousadas, restaurantes e cafés foram fechados. Algumas dezenas de fiéis ainda passam pelo local em busca de curas, mesmo sem outro líder ocupando o lugar de João de Deus.
O que diz a defesa
A reportagem tentou contato com o advogado Anderson Van Gualberto de Mendonça, que representa João de Deus, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
O caso segue em andamento, e novas informações serão divulgadas assim que os recursos forem julgados pelas instâncias superiores.








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