SÃO PAULO — Uma controvérsia comercial envolvendo a compra e venda de uma residência de alto padrão avaliada em R$ 2 milhões na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, litoral de São Paulo, tomou contornos graves e acabou sendo solucionada à margem da Justiça oficial. Em vez de acionar o Poder Judiciário, os envolvidos recorreram ao sistema paralelo do Primeiro Comando da Capital (PCC) para arbitrar o conflito, segundo aponta uma investigação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
O episódio é um dos pilares da Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21) pelas forças de segurança paulistas e pelo Ministério Público. A ação cumpriu mandados de prisão preventiva contra empresários, intermediários e lideranças do crime organizado acusados de integrar uma complexa engrenagem de lavagem de dinheiro e cobranças ilícitas. Ao todo, 13 investigados já foram detidos.
Impasse financeiro e recurso ao crime organizado
De acordo com os relatórios das autoridades, o conflito teve início durante a negociação do imóvel praiano entre o empresário Cléber Azevedo dos Santos, apontado como o vendedor da casa, e Marcelo de Morais Oliveira, identificado como o comprador. Diante do não pagamento de um saldo devedor referente aos R$ 2 milhões acordados, as tratativas amigáveis foram rompidas.
Em vez de registrar um processo cível ou buscar mediação legal, Cléber optou por buscar auxílio voluntário na estrutura paralela do crime organizado. Para se aproximar do escalão decisório da facção, ele contou com o apoio de intermediários já conhecidos dos meios policiais: Antonio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana — ambos com histórico de citação na Operação Bazaar.
A ponte levou a demanda até Leonardo Monteiro Moja, conhecido pela alcunha de “Léo do Moinho”, uma das figurações de topo na hierarquia do PCC. A partir desse contato, a dívida privada do imóvel de luxo ingressou formalmente na pauta de deliberações do grupo criminoso.
A apuração detalha que, em maio de 2023, as partes chegaram a realizar um encontro presencial na Zona Sul da Capital paulista. Na ocasião, Marcelo compareceu respaldado por integrantes armados da facção, em uma tentativa de impor constrangimento e intimidação ao vendedor. Como o impasse permaneceu, o litígio subiu para a estância máxima de arbitragem do grupo, tratada internamente como o “resumo de SP”.
Análises periciais realizadas em celulares apreendidos com autorização judicial revelaram a existência de um grupo no aplicativo WhatsApp denominado “Assunto Pertinente a casa Riviera”. No canal, os investigadores interceptaram áudios gravados durante as sessões virtuais do “tribunal do crime”.
Entre os participantes ativos das gravações foram identificados nomes relevantes da facção, como Alexandre Viriato da Silva, o “Gordão”, e Antonio Carlos Sampaio, conhecido como “Compadre” ou “Kaka”, que possui condenação prévia por organização criminosa. Em um dos trechos mais alarmantes colhidos pelo MP, “Compadre” chegou a manifestar disponibilidade para manter os envolvidos em cativeiro caso o acordo não fosse cumprido imediatamente.
“O investigado referia-se aos líderes da facção como ‘irmãos’ e agradecia o suporte recebido, demonstrando plena submissão às regras paralelas da organização para assegurar a cobrança patrimonial” — destaca trecho do relatório ministerial.
Histórico de reincidência e balanço das prisões
O levantamento do Ministério Público aponta que o recurso ao PCC para solucionar contendas financeiras não foi uma atitude isolada de Cléber Azevedo dos Santos. A investigação comprovou que o empresário já havia utilizado o mesmo expediente ilegal para resolver um litígio anterior relativo à aquisição de um galpão comercial na Zona Leste da capital paulista, ocasião em que atuava em sociedade com outros investigados.
Diante da gravidade dos fatos e da farta comprovação documental e pericial, a Justiça decretou a prisão preventiva dos principais personagens envolvidos na arbitragem paralela da mansão.
Entre os alvos com ordens de prisão preventiva decretadas estão:
- Cléber Azevedo dos Santos (Vendedor / Solicitante)
- Marcelo de Morais Oliveira (Comprador)
- Leonardo Monteiro Moja, o “Léo do Moinho” (Liderança do PCC)
- Antonio Carlos Ubaldo Júnior (Intermediário)
- Marlon Antonio Fontana (Intermediário)
- Antonio Carlos Sampaio, o “Compadre” (Membro do tribunal paralela)
- Alexandre Viriato da Silva, o “Gordão” (Integrante)
- Danillo Vinicius da Silva Rosário (Investigado)
- André de Souza Haddad, o “Minhoca” (Investigado)
No total da Operação Janus, 11 suspeitos foram detidos em campo, dois alvos já cumpriam pena em estabelecimentos prisionais e outros cinco permanecem foragidos, incluindo Leonardo Meirelles. As investigações continuam para identificar outros patrimônios de origem ilícita e eventuais conexões financeiras da rede.









Comentários