Naçoitan Araújo Leite é acusado de invadir a casa da ex-companheira, derrubar o portão com uma caminhonete e disparar pelo menos 13 vezes contra o quarto onde o casal estava. Vídeo de câmera de segurança registrou a ação. Decisão de pronúncia mantém qualificadora de feminicídio.
Por Redação do Diário do Povo
Iporá, GO, 07 de outubro de 2026 – A Justiça de Goiás decidiu levar a júri popular o ex-prefeito de Iporá Naçoitan Araújo Leite, acusado de tentar matar a ex-mulher e o então namorado dela em novembro de 2023. A decisão de pronúncia, assinada pelo juiz Matheus Nobre Giuliasse, foi publicada nesta terça-feira (6) e encaminha o caso ao Tribunal do Júri, que deverá analisar as acusações de duas tentativas de homicídio qualificado.
A pronúncia não representa uma condenação. Nessa fase, o juiz apenas avalia se há elementos suficientes para que a acusação seja examinada pelos jurados, que decidirão sobre a responsabilidade criminal do réu.
O Ataque
O crime ocorreu na madrugada de 18 de novembro de 2023, na Vila Brasília, em Iporá, no oeste de Goiás. Segundo a denúncia do Ministério Público de Goiás (MP-GO), Naçoitan utilizou uma caminhonete Amarok preta para derrubar o portão da residência da ex-companheira e, depois de entrar no imóvel, efetuou pelo menos 13 disparos na direção do quarto onde o casal dormia.
As vítimas se esconderam atrás de uma parede lateral e sobreviveram. Os tiros atingiram portas de vidro, móveis e o colchão da cama. Uma das vítimas relatou à polícia que chegou a ouvir o acusado puxar o gatilho novamente, mesmo após o fim da munição.
A acusação aponta que o crime foi motivado pela não aceitação do fim do relacionamento, que durou cerca de sete a quinze anos, e pelo fato de a ex-companheira ter iniciado um novo namoro cerca de dois meses antes do ataque.
O Que Diz a Vítima
Em entrevista à TV Anhanguera, a ex-mulher relatou os momentos de pânico.
— Ouvi o meu ex-marido gritando o meu nome umas duas vezes, e depois disso ele descarregou um pente de arma na porta do meu quarto. Tenho certeza que ele veio pra me matar — desabafou a mulher.
Ela também revelou que pretende se mudar da cidade.
— Não pretendo continuar morando nessa casa. Eu estou com o sentimento de que estou sendo expulsa da minha cidade por uma pessoa que se vê dono da cidade — disse.
Imagens de Câmera de Segurança
Câmeras de segurança de uma residência vizinha registraram toda a ação, que durou cerca de três minutos. As imagens mostram o momento em que Naçoitan para a caminhonete em frente à casa, desce para verificar se há alguém no imóvel e, em seguida, acelera o veículo contra o portão.
Ainda segundo as investigações, após deixar o local, o então prefeito foi até um hotel onde estava hospedado. Imagens da câmera de segurança da recepção, registradas às 1h39 da manhã, cerca de 28 minutos após o crime, mostram Naçoitan colocando as armas sobre o balcão do estabelecimento.
Acusações e Qualificadoras
A decisão de pronúncia manteve a qualificadora de feminicídio na tentativa contra a ex-mulher, por suposta violência doméstica e familiar. Para as duas vítimas, também foram admitidas as qualificadoras de motivo torpe, relacionado à não aceitação do fim do casamento e do novo relacionamento, e de uso de arma de fogo de uso restrito.
Laudos periciais classificaram como restrita uma pistola 9mm apreendida e relacionaram a arma a estojos e projéteis recolhidos no local. O confronto balístico confirmou a compatibilidade entre os projéteis encontrados e a arma apreendida.
Além das duas tentativas de homicídio, Naçoitan também responderá por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito e fraude processual. A acusação de fraude se refere à retirada do aparelho DVR que armazenava as imagens das câmeras de segurança da residência. Conforme a decisão, a ex-mulher relatou que o equipamento havia sido levado, e Naçoitan admitiu que voltou ao imóvel e retirou o aparelho.
O Ministério Público também pede que, em caso de condenação, seja fixada uma indenização mínima de R$ 150 mil para cada vítima.
Confissão e Defesa
Na época do crime, Naçoitan admitiu à polícia que invadiu a residência armado com duas armas e fez os disparos. No entanto, negou que pretendesse matar a ex-mulher e o namorado dela, alegando que não se lembrava dos acontecimentos.
A defesa pediu que ele não fosse levado a júri e alegou, entre outros pontos, desistência voluntária. O juiz rejeitou os pedidos nesta etapa, mas determinou que essas teses poderão ser apresentadas aos jurados durante o julgamento.
Procurada, a defesa de Naçoitan afirmou que tomou conhecimento da decisão por meio da imprensa e que vai recorrer.
Prisão e Medidas Cautelares
Naçoitan Leite foi preso preventivamente em novembro de 2023 e solto em fevereiro de 2024 pelo juiz Wander Soares Fonseca, que revogou a prisão com o uso de tornozeleira eletrônica. Atualmente, ele responde ao processo em liberdade, com medidas cautelares que incluem comparecimento mensal ao Judiciário, manutenção do endereço atualizado e proibição de contato ou de frequentar locais onde estejam a vítima e seus familiares.
Ele se entregou à polícia cinco dias após o ataque, quando foi cumprido um mandado de prisão preventiva.
Outras Polêmicas
Naçoitan Araújo Leite também foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por defender, em 2022, a “eliminação” do ministro Alexandre de Moraes e do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. A pena de três meses foi convertida em oito penalidades alternativas, incluindo multa de 20 salários mínimos, pagamento de R$ 5 milhões por danos morais e proibição de uso de redes sociais.
Além disso, o Ministério Público apresentou denúncia contra o ex-prefeito e outras 12 pessoas por supostas irregularidades envolvendo dinheiro destinado à saúde, com pedido de devolução de R$ 841.395,89 aos cofres públicos.
Próximos Passos
A data do julgamento pelo Tribunal do Júri ainda não foi definida. A defesa pode recorrer da decisão de pronúncia ao Tribunal de Justiça de Goiás (TJ-GO) antes da realização da sessão. Caso a pronúncia seja mantida, caberá aos jurados decidir se o ex-prefeito é culpado ou inocente das acusações.
A pena para tentativa de homicídio qualificado pode variar de 4 a 20 anos de prisão, de acordo com o Código Penal.









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