Desentendimento durante depoimento de perito criminal interrompeu julgamento que duraria cinco dias; nova data será marcada com novos jurados

GUARULHOS (SP) — O julgamento dos três policiais militares acusados de participar do assassinato do empresário e delator do PCC Antônio Vinícius Gritzbach e do motorista de aplicativo Celso Novais foi anulado nesta segunda-feira (22). A defesa abandonou o plenário do Fórum Criminal de Guarulhos, na Grande São Paulo, após desentendimento com o promotor do caso.
O júri deve ser remarcado em nova data com sorteio de novos jurados. Segundo o Tribunal de Justiça, “houve abandono do plenário pela defesa dos réus após desentendimento com o promotor, e, por isso, dissolução do conselho de sentença. O júri será redesignado para data oportuna.”
Gritzbach foi morto com tiros de fuzil na área de desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em 8 de novembro de 2024. O motorista, que não o conhecia, foi atingido por um disparo durante o ataque e morreu.
A briga no plenário
A discussão ocorreu durante a sessão entre os advogados dos réus e o promotor de Justiça Rodrigo Merli Antunes. Segundo a defesa, o representante do Ministério Público relembrou que um dos advogados havia sido vítima de um suposto atentado em Sorocaba, episódio que, na avaliação dos defensores, não tem relação com o caso em julgamento.
Após a referência ao episódio, os advogados decidiram deixar o plenário. Com a saída da defesa, o julgamento foi interrompido e acabou anulado.
A tensão começou antes, durante o depoimento de um perito criminal que trabalhou no caso. O advogado Renan Canto estava questionando a testemunha quando foi interrompido pelo promotor, que o acusou de não ter lido o processo. O advogado protestou, e o promotor rebateu dizendo que ele conversava com “bandido” e “matador de aluguel”. Os outros advogados se levantaram para defender o colega, e em meio aos gritos de protesto, Antunes dizia “blá-blá-blá”.
“O sujeito é folgado”, disse o advogado Claudio Dalledone. “Acredito que não vai ter júri com esse sujeito aqui”, acrescentou, chamando o promotor de cínico e descortez.
Renan Canto chegou a caminhar em direção à porta, ameaçando abandonar o plenário caso o promotor não fosse repreendido. Após protestos dos defensores, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo pediu que o promotor não transitasse próximo aos advogados quando eles estivessem questionando as testemunhas.
Reações após a anulação
Na saída do fórum, Simone Dionizia Fernandes, viúva do motorista Celso Novais, se aproximou do advogado de defesa Claudio Dalledone e o acusou de ter provocado a anulação do julgamento.
“Meu filho está há dois anos sem o pai em casa, e vocês cancelaram o julgamento. Isso não é justo. Estou há dois anos lutando por Justiça”, disse. Ela afirmou que a interrupção da sessão a fez reviver o trauma da morte do marido.
“Foi um show lá dentro, foi uma estratégia da defesa, eles são atores. Estou sentindo tudo de novo, tudo veio à tona quando o juiz falou. Só eu sei a luta sozinha em casa com três filhos. Só eu sei o que estou passando”, declarou.
O que disseram as partes
Em coletiva de imprensa durante o intervalo do julgamento, o advogado Claudio Dalledone afirmou: “O Ministério Público faz um jogo de cena para que o júri não termine. O promotor quer dissolver o conselho.”
O promotor Rodrigo Merli Antunes rebateu: “Quem disse que ia abandonar o plenário foi a defesa. Isso demonstra que eles pretendem não levar o julgamento adiante. Qualquer incidente vão usar para se vitimizar. Essa banca conhecida de advogados, eles parecem leões na imprensa, mas aqui se mostraram gatinhos.”
Os réus
Os três policiais militares que respondem ao processo são:
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Fernando Genauro da Silva (tenente da PM) — acusado de dirigir o carro usado na fuga
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Denis Antonio Martins (cabo da PM) — acusado de atirar em Gritzbach
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Ruan Silva Rodrigues (soldado da PM) — acusado de também atirar no empresário
Eles estão presos e são acusados de homicídio qualificado pela morte de Gritzbach e de Celso Novais, além de duas tentativas de homicídio (pessoas feridas no ataque).
O que diz a defesa
Os advogados dos três afirmam que eles são inocentes e dizem que “houve um direcionamento investigativo voltado à sua incriminação, sem a devida apuração de fatos e circunstâncias envolvendo outros investigados”.
O caso Gritzbach
Antes de ser executado, o empresário havia delatado ao Poder Judiciário um esquema de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro envolvendo criminosos do PCC, Comando Vermelho e policiais corruptos. Em troca, receberia o benefício da redução da pena caso fosse condenado por lavagem de dinheiro para as facções.
Próximos passos
O júri será redesignado para data oportuna, com novos jurados sorteados. A previsão inicial era de que o julgamento durasse cinco dias, com 21 testemunhas ouvidas.
O caso segue em andamento, e novas informações serão divulgadas assim que forem liberadas pelas autoridades competentes.











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