Jefferson de Souza é acusado de usar deepfake para manipular fotos de mulheres e adolescentes da Congregação Cristã do Brasil e simular cenas sensuais dentro de templos; em depoimento, ele negou as acusações

SÃO PAULO — A Polícia Civil de São Paulo investiga um influenciador digital acusado de usar inteligência artificial (IA) para manipular fotos de jovens evangélicas e inseri-las, sem autorização, em vídeos com conteúdo sexualizado dentro de igrejas da Congregação Cristã do Brasil (CCB).
Humorista, imitador de Silvio Santos e borracheiro, Jefferson de Souza, de 37 anos, é suspeito de divulgar nas redes sociais imagens de cunho sexual envolvendo mulheres e adolescentes alteradas pela técnica conhecida como deepfake. Em depoimento à polícia, ele negou a acusação.
O que é deepfake
Deepfake é uma técnica que usa inteligência artificial para criar ou alterar fotos, vídeos ou áudios de forma realista, fazendo parecer que uma pessoa fez ou disse algo que nunca aconteceu.
As publicações foram feitas no YouTube, onde o influenciador mantém o canal “Humor do Crente”, com mais de 11 mil inscritos, além de perfis no Instagram, Facebook e TikTok, onde se apresenta como “Silvio Souza” — numa alusão ao apresentador Silvio Santos — e reúne aproximadamente 37 mil seguidores.
A denúncia
O inquérito foi aberto em fevereiro após uma estudante de 16 anos e seus pais procurarem a 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em São Mateus, Zona Leste da capital paulista, para denunciar o influenciador. Eles acusam Jefferson de ter alterado e erotizado a imagem da adolescente.
A foto da jovem foi feita em 2025, em frente ao altar da CCB do Brás, no Centro de São Paulo. Na época, ela tinha 15 anos e usava vestido abaixo dos joelhos e salto alto — vestimenta comum nos cultos.
No vídeo criado pelo influenciador, além da estudante, foram inseridas outras três jovens — que ela não conhece e tampouco há confirmação de que sejam reais. As quatro aparecem com os braços erguidos e as bocas abertas. Duas delas usam minissaias, tipo de roupa que não costuma aparecer nas igrejas da CCB.
“Eu vi os vídeos. Ele pegou a minha foto sem autorização e fez uma montagem com inteligência artificial, com as mulheres sensualizando na frente e [comigo] junto a elas”, disse a jovem à reportagem.
Outras vítimas
Outra jovem relatou ter sido alvo do mesmo tipo de montagem. No caso dela, o influenciador usou uma foto em que ela aparece de blusa de mangas compridas e saia longa, apoiada no banco da igreja, e criou um novo vídeo. Nele, inseriu imagens de uma outra jovem com minissaia, além de Silvio Santos, vestido com o tradicional terno com microfone. Jefferson aparece comentando e criticando as roupas usadas pelas jovens.
Em algumas gravações, ele veste uma camiseta com o símbolo do SBT, fazendo uma paródia com as letras da emissora ao se definir como “Sou Borracheiro, Trabalhador”. O influenciador também já inseriu imagens do apresentador Ratinho. Ele afirma ainda ser membro da Congregação Cristã do Brasil e faz comentários depreciativos sobre mulheres que usam véu branco, tradicional na igreja.
“Já fiz várias denúncias contra essa conta. Já entrei com um processo com todos que estão usando minha imagem”, diz a vítima.
Impacto emocional
A estudante de 16 anos afirma que tenta superar o trauma após ter sua imagem manipulada sem consentimento. “Eu sou muito envergonhada, então não queria ter sido exposta. Eu tomo cuidado e também fico com medo disso afetar meu convívio social”, afirma.
Ela conta que a foto foi feita apenas como registro de um momento de fé. “Hoje em dia é bem comum tirar foto de si próprio ou tirar foto mesmo da igreja para falar que foi ao culto. Eu não tirei mais nenhuma [fotografia]. Não tem mais nenhuma e também me gerou preocupação.”
Os pais dela também relatam o impacto emocional. “Do mesmo jeito que eu senti que fui ferida por mexer com a minha filha, eu também senti isso com as outras meninas”, lamenta a mãe. “Tira o sono.”
“Havia uma quantidade enorme de vítimas. Não só a minha filha. [Ele usou] manipulação [de foto] com [vídeo de] conotação sexual que se agrava ainda mais com menores de idade… Isso tem que cessar”, diz o pai.
A família entrou com ação na Justiça pedindo indenização por dano moral. “A apuração desse crime, bem como o processo de danos morais, é muito importante para que tenha um caráter educativo”, afirma o advogado William Valvasori.
O que dizem especialistas
Especialistas ouvidos afirmam que o uso de IA não reduz a responsabilidade de quem cria ou divulga esse tipo de material.
“Em casos como o do vídeo em questão, quem o produziu com a ajuda de IA é legalmente responsável pelo conteúdo que produziu, assim como as pessoas que curtem e compartilham, ajudando a disseminá-lo”, disse a advogada Nuria López.
Para a pesquisadora Laura Hauser, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o foco não deve ser o comportamento das vítimas. “Não é a vítima que tem que se cuidar. O predador que deve ser intimado a melhorar.”
Segundo ela, os vídeos misturam imagens das vítimas com cenas de mulheres com pouca roupa e conotação sexual, com o objetivo de difamar. “Não dá para o investigado dizer que não tinha a intenção de ofender se as ofensas forem claras.”
Sofia Schurig, pesquisadora da SaferNet Brasil — ONG que atua na defesa dos direitos humanos na internet — explica a origem do termo. “Deepfake é uma palavra que surge em 2017, a partir de um usuário do Reddit que começou a publicar montagens com IA generativa de celebridades em cenas e com textos de nudez.”
Para Juliana Cunha, diretora da SaferNet, casos como este tendem a crescer com o avanço da tecnologia. “É muito importante que vítimas dessa violência não se sintam culpadas. Sem dados, a gente não consegue influenciar mudanças de políticas públicas e de legislação.”
O que diz a delegada
“A internet não é uma terra sem lei. As leis que nos protegem no mundo real também se aplicam no ambiente virtual”, afirma a delegada Juliana Raite Menezes, da 8ª DDM.
Inicialmente, o caso foi registrado como simulação de cena de sexo ou pornografia com menor de 18 anos por meio digital, conforme o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A pena prevista é de 1 a 3 anos de reclusão, além de multa. Com o trabalho da polícia para identificar outras vítimas, adolescentes e adultas, Jefferson também passou a ser investigado por suspeita de difamação.
“A gente está investigando esse caso de deepfake. Houve uma simulação dessas imagens dessas meninas, algumas delas adolescentes”, afirma a delegada.
A polícia analisa diversos vídeos postados pelo influenciador. Geralmente ele usa como música os vídeos o hino da Congregação Cristã do Brasil. A delegada pede que outras possíveis vítimas procurem a DDM.
O depoimento do influenciador
Em depoimento à polícia, por carta precatória, o influenciador admitiu usar fotos de jovens evangélicas da Congregação Cristã do Brasil e ferramentas do TikTok para animar e manipular as imagens, transformando-as em vídeos.
Sobre a adolescente de 16 anos que o denunciou na delegacia, afirmou desconhecer que se tratava de uma adolescente e disse que, “em razão do porte físico”, acreditou que fosse “uma pessoa adulta”. Também declarou que “negou ter vinculado a imagem da adolescente a fotografias de mulheres com pouca vestimenta ou a qualquer conteúdo sexualizado ou pornográfico”.
Ele confirmou ser responsável pelos perfis nas redes sociais e disse que produz “conteúdo humorístico”, com imitações e críticas relacionadas à igreja da qual é fiel. Segundo Jefferson, “a crítica associada à postagem representava sua opinião pessoal de que determinadas fotografias não seriam adequadas dentro da doutrina da igreja”.
Afirmou ainda que acreditava que o uso da imagem não causaria problemas por já estar disponível na internet e que “negou qualquer intenção ofensiva específica contra a adolescente ou contra outras pessoas fora do contexto religioso”.
Pedido de desculpas
Em vídeo postado no domingo de Páscoa (5 de abril), Jefferson pediu “desculpas” aos “irmãos” da Congregação Cristã do Brasil pelos vídeos que postou com críticas à igreja.
“Eu quero pedir desculpa, pedir perdão publicamente pelos vídeos que eu andei postando. Eu confesso que errei na minha forma de falar.”
Em nenhum momento ele mencionou os deepfakes que fez com as adolescentes e mulheres. “Eu peço perdão a todos que se sentiram ofendidos. Eu prometo ser mais cauteloso.”
O que dizem as plataformas e a igreja
O SBT foi procurado para informar se Jefferson teve vínculo com a emissora e se adotará alguma medida pelo uso do logotipo na deepfake, mas não respondeu até a última atualização.
Em nota, a Congregação Cristã do Brasil informou que não possui registro formal de membros e que apoia a adoção de medidas legais cabíveis por parte das autoridades. “Estamos de pleno acordo com as medidas cabíveis de justiça, que se fizerem necessárias, preservando a individualidade e, sobretudo, o respeito para com as pessoas”, diz trecho do comunicado.
As plataformas digitais também se manifestaram. O TikTok informou adotar tolerância zero para exploração sexual infantil e remover conteúdos desse tipo. O YouTube disse que retirou vídeos que violavam suas diretrizes. A Meta, responsável por Instagram e Facebook, não comentou.
Investigação
O inquérito, que começou na 8ª DDM da capital, foi encaminhado pela 1ª Vara de Crimes Praticados contra Crianças e Adolescentes de São Paulo à 2ª Vara da Comarca de Lençóis Paulista, no interior do estado, onde o investigado mora. O pedido foi feito pelo Ministério Público (MP).
O caso segue em andamento, e novas informações serão divulgadas assim que forem liberadas pelas autoridades competentes.








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