SÃO PAULO – O empresário e influenciador digital Leonardo Marcondes tornou-se réu perante a Justiça de São Paulo sob a acusação de promover discriminação e discurso de ódio contra a população de baixa renda. A decisão atende a uma denúncia formalizada pelo Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), motivada por uma série de publicações nas redes sociais em que o coach afirmava que cidadãos de classes sociais desfavorecidas não deveriam ter o direito ao voto.
Além do acolhimento da denúncia, o Poder Judiciário aplicou medidas restritivas imediatas ao criador de conteúdo. Leonardo Marcondes está expressamente proibido de realizar novas postagens de caráter preconceituoso ou pejorativo direcionadas a grupos financeiramente vulneráveis. Diante do avanço do processo legal, o influenciador deletou de seu perfil oficial no Instagram todos os vídeos e manifestações que originaram a investigação penal.
As investigações conduzidas pela Promotoria de Justiça apontam que o réu utilizava sua visibilidade nas plataformas digitais para disseminar preconceitos estruturais e segregação socioeconômica. Em um dos registros mais compartilhados, Marcondes questiona publicamente a capacidade cognitiva e política de indivíduos das classes C, D e E para escolher os representantes do país.
“E essa pessoa que não tomou boas decisões pra ter o melhor pra si mesma, ela vai agora tomar uma decisão que vai ser o melhor para o país? Qual que é a habilidade que essa pessoa tem ao tomar decisões? Nenhuma. É uma pessoa que não deveria votar. Porque um país ou uma empresa não pode estar nas mãos de uma pessoa que não consegue nem ter responsabilidade sobre as próprias atitudes”, afirmou o influenciador nas gravações coletadas pelos investigadores.
O Ministério Público sustentou que tais falas não se amparam no preceito constitucional da liberdade de expressão, configurando uma tentativa direta de desumanizar parcelas expressivas da sociedade civil e atacar pilares do regime democrático de direito, como o sufrágio universal.
A peça acusatória do MP-SP destaca que o posicionamento contra o direito ao voto não foi um episódio isolado. Em monitoramentos anteriores, a Promotoria identificou declarações nas quais o empresário afirmava que pessoas pobres “não gostam de tomar banho”, mantêm “carros sujos e fedidos” e “não sabem educar seus filhos”, além de alegar publicamente que as classes populares seriam “preguiçosas” por natureza e “não deveriam transar”.
Outro ponto trazido à tona pelas autoridades diz respeito à atuação profissional do réu. Leonardo Marcondes, que se apresenta nas redes como mentor financeiro e palestrante de alta performance, comercializava cursos e mentorias de negócios sem possuir graduação na área correspondente. Em depoimento e checagem de dados, constatou-se que o coach declarou ter frequentado oito semestres do curso de Administração, contudo, pulverizados em oito faculdades diferentes, sem concluir nenhuma delas.
A Promotoria de Justiça havia solicitado inicialmente o bloqueio integral do perfil do influenciador no Instagram, alegando o risco de reiteração criminosa e a necessidade de interromper a monetização do discurso de ódio. Embora a remoção completa da conta não tenha sido determinada em caráter liminar, a obrigação de exclusão dos conteúdos preconceituosos foi mantida sob pena de sanções severas.
A defesa técnica de Leonardo Marcondes manifestou-se pontuando que o cliente encontra-se permanentemente à disposição do Poder Judiciário para prestar os esclarecimentos necessários à elucidação dos fatos. Os advogados do réu criticaram publicamente a exposição do teor da denúncia antes que houvesse a devida manifestação do contraditório e o amplo exercício do direito de defesa no decorrer da instrução processual. O caso agora segue para a fase de instrução e julgamento no Tribunal de Justiça de São Paulo.




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